quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Alunos surdos cantam, dançam e interpretam na aula de Arte.

Trabalhar música, dança e teatro com alunos surdos ainda é raridade. Conheça três exemplos de professores que fazem isso com qualidade.

TEATRO INCLUSIVO Na EM Severino Travi, alunos ouvintes e surdos exibem-se em palcos de festivais e outras escolas.

Há muito tempo, se fala em inclusão de crianças com deficiência nas escolas. Cenas como a da foto acima, porém, continuam sendo raras. Trata-se de um grupo de teatro escolar que mistura alunos deficientes auditivos com ouvintes. Na EM Severino Travi, em Canela, a 122 quilômetros de Porto Alegre, as atividades de Arte integram normalmente os surdos. A trupe teatral já participou de vários festivais, ganhou prêmios e sempre é muito aplaudida. Além disso, a garotada tem uma fanfarra - e todos concordam que o contato com as diferentes expressões artísticas ajuda a turma também nas outras disciplinas, sem falar na integração entre os alunos. A Severino Travi, no entanto, ainda é exceção.

Mas, ainda que o número de surdos matriculados em escolas regulares venha aumentando (só nos últimos dois anos, o crescimento foi de 21%, segundo o Censo Escolar), os próprios especialistas têm dificuldades em indicar boas experiências de ensino de Arte que incluam esse público específico. Para produzir esta reportagem, por exemplo, NOVA ESCOLA entrou em contato com todas as Secretarias estaduais de Educação e com dezenas de municipais. Nenhuma delas conhecia boas escolas para indicar.

Felizmente, há (sim) professores desenvolvendo bons trabalhos de Arte que incluem crianças e jovens que sofrem, em algum grau, com a deficiência auditiva. E, como acontece com as outras disciplinas, os resultados são sempre muito animadores. Os surdos estão mais habituados a gesticular e perceber emoções nos outros. Por isso, quando convocados a se expressar por meio de caras, bocas e movimentos do corpo, eles tiram de letra. "Para aproveitar melhor essa habilidade, é essencial explorar linguagens diferentes", diz Daniela Alonso, especialista em inclusão e selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10. "Para ficar no exemplo do teatro, é possível montar um espetáculo falado na Linguagem Brasileira de Sinais (libras), trabalhar com mímica ou mesmo criar personagens que não falam, mas interagem com os outros."

Basta lembrar que, antes de surgir a tecnologia que permitiu criar filmes falados, todo mundo entendia o cinema mudo. Nas artes visuais, a audição não costuma ser o sentido mais importante. E muita gente sabe que, para dançar, basta sentir a vibração da música (e não é preciso ouvir para sentir essa vibração). Nesta reportagem, você vai conhecer as histórias de três escolas que desenvolvem projetos de qualidade que incluem jovens surdos em atividades de teatro, dança e música. Afinal, como escreveu o russo Leon Tolstói (1828-1910), a Arte é mesmo "um dos meios que unem os homens".

Boas formas de usar o intérprete nas aulas de teatro

PROTAGONISTAS E COADJUVANTES Na EE Clarisse Fecury, em Rio Branco, alunos surdos participam normalmente das classes de Teatro do 5º ano. A garotada já fez peças sem diálogos, espetáculos de dança, cenas usando libras e montagens com falas. "Explorar as possibilidades permite que todos sejam protagonistas. Do contrário, os surdos só interpretam papéis coadjuvantes", diz Simone Araújo da Costa, a professora, que conta com a ajuda de uma intérprete.

Simone Araújo da Costa, da EE Clarisse Fecury, em Rio Branco, conta com uma ajuda especial em suas aulas de Teatro. Como ela tem quatro alunos surdos na turma de 5º ano, a intérprete Jardilene Lopes participa de todas as atividades preparadas pela professora. Tudo o que Simone ensina, Jardilene traduz para libras. Assim, ela ajuda as crianças com deficiência a acompanhar as tarefas, que são sempre diversificadas: peças tradicionais, outras só em linguagem de sinais e algumas com destaque para a dança. Tudo para permitir que os estudantes atuem em papéis diferentes e conheçam estilos diversos de encenar textos teatrais (leia mais na legenda da foto acima).

Vale lembrar que foi só em 2005 que entrou em vigor a lei que garante o direito de ter um intérprete na sala de aula. Mas outra mudança, dizem os especialistas, também foi fundamental para aumentar a participação dos surdos nas escolas regulares. "As famílias estão mais conscientes sobre as possibilidades dos filhos. Essa mudança de postura foi a grande responsável pelo aumento do número de matrículas", diz Maria Sílvia Cárnio, coordenadora de um grupo de teatro com surdos e docente do curso de Fonoaudiologia da Universidade de São Paulo (USP). "Ser participante de uma manifestação artística melhora muito a visão que o aluno tem de si próprio. No palco, ele está no centro e se sente ainda mais integrado", completa.

No dia a dia, há outros benefícios importantes. O teatro auxilia também no aprendizado da Língua Portuguesa. "A leitura das peças melhora a escrita e ajuda a entender as regras gramaticais, a ampliar o repertório cultural e a desenvolver a oralização daqueles que conseguem falar", destaca Maria Sílvia. Em Rio Branco, todos têm muito contato com a língua escrita: ao apreciar montagens em vídeo, acompanham as histórias com legendas e, ao ler textos teatrais, aprendem a importância da pontuação para transmitir as ideias - como não existem pontuação e entonação em libras, aprender o português formal não é tão simples para os deficientes auditivos.
Ensinar música para surdos pode parecer muito difícil. Mas basta lembrar que Beethoven (1770-1827) se tornou um gênio do cenário erudito depois que perdeu a audição. Por não ouvirem, os surdos têm os outros sentidos mais aguçados, o que lhes permite, por exemplo, captar com relativa facilidade as oscilações geradas pelas ondas sonoras. É por isso que eles conseguem notar a aproximação de uma pessoa. E é essa vibração a chave para atividades com instrumentos em classe.

A EM Severino Travi, citada no início desta reportagem, faz isso há algum tempo com a garotada de 5º ano. O professor Rogério Heurich é também o maestro da fanfarra da escola, que conta com a participação de vários estudantes deficientes auditivos - quase todos eles tocam instrumentos de percussão.

No início, os gestos usados para reger se confundiam com os sinais de libras. Junto com o intérprete da escola, ele bolou um jeito diferente de reger e acabou com os problemas de comunicação (leia mais na legenda da foto da página seguinte). "A surdez não é uma barreira. Como esses meninos são mais sensíveis às vibrações sonoras, conseguem grande precisão na hora de usar a força", explica Rogério.

NOVAS FORMAS DE COMUNICAÇÃO A maior dificuldade do professor Rogério Heurich nas aulas de música era se comunicar: os sinais usados pelos maestros eram difíceis de entender para os jovens surdos da EM Severino Travi, em Canela, no interior gaúcho. Com o auxílio da intérprete, ele criou gestos especiais, misturados com libras. "Agora que o ano está terminando, eles nem precisam mais que eu aponte os erros. Às vezes, ajudam os colegas ouvintes a entrar no ritmo", orgulha-se.

Explorando as imagens para dançar

IMAGENS QUE VIRAM MOVIMENTO Primeiro, foram selecionadas imagens que inspiravam movimentos. Em seguida, os estudantes montaram uma sequência. Assim, as meninas surdas do CE Colemar Natal e Silva, em Goiânia, acompanharam as aulas de dança. "Os alunos podem inventar passos, analisar movimentos e pensar sobre o conteúdo, em vez de só copiar a coreografia", diz a professora Ana Paula Ruggiero.

Na dança, a oscilação do som também tem papel importante. A vibração da música ajuda a marcar o ritmo - assim como o sapateado ou a marcação num tambor. Mas há várias outras formas de trabalhar coreografias em classe. "Luzes permitem indicar tempos no espetáculo", lembra Ana Paula Ruggiero, do CE Colemar Natal e Silva, em Goiânia. Ela conta que, no começo, sofreu para se comunicar com os alunos surdos do 5º ano, pois eles confundiam os sinais de libras com movimentos que a professora queria ensinar. A solução encontrada por Ana Paula foi explorar o sentido da visão. Em vez de partir diretamente para exercícios corporais, ela utilizou algumas aulas para trabalhar com imagens que remetem a movimentos, escolhidas pelos próprios alunos (leia mais na legenda da foto da página à esquerda). Ao combinar com eles o que cada ilustração queria dizer, no contexto da montagem que o grupo estava fazendo, ficou mais fácil para todos. Em vez de gesticular, a professora espalhou os desenhos pelas paredes da sala, o que permitiu que a moçada seguisse os passos da coreografia ensaiada em conjunto.

"Pegar a foto de uma bailarina em cena e fazer com que os alunos apenas copiem não aproveita o poder de criação que eles têm. Até figuras abstratas podem ser trabalhadas com a turma desde que o professor atribua um sentido às imagens e avance nessa aprendizagem", afirma Lúcia Reily, especialista em Arte na Educação Especial da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior de São Paulo. Como você viu aqui, incluir crianças e jovens com deficiência auditiva traz vantagens para todos. Os surdos, que muitas vezes se fecham num grupo (pela dificuldade de se comunicar), passam a se integrar mais. Já os ouvintes têm acesso à linguagem de sinais, o que facilita o contato com os colegas. Nas aulas de Arte, que naturalmente favorecem as trocas, esse interesse em compreender o outro aumenta. Os professores entrevistados contam que os surdos ficam mais sociáveis e, ao descobrir novas formas de se expressar, passam a se interessar mais pelas outras disciplinas também.

http://revistaescola.abril.com.br/inclusao/educacao-especial/alunos-surdos-cantam-dancam-interpretam-aula-arte-611922.shtml?page=0


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